É com o sol da primavera que a vida reaprende a aparecer. A luz torna-se mais generosa, o frio se retrai e, como se obedecessem a um antigo acordo com o tempo, as flores rompem a terra e se mostram. Elas não apenas florescem: embelezam a existência, lembrando que a vida, quando encontra condições, tende naturalmente à forma, à cor e ao sentido.
É também sob o sol da primavera que os frutos surgem — coloridos, maduros, saborosos. O que antes era promessa se converte em alimento e prazer. O pomar não engana: ele devolve exatamente o cuidado que recebeu. Cada fruto traz em si a memória do tempo, do trabalho e da espera.
Da mesma forma, é o sol da primavera que sustenta a lavoura. É nele que o alimento encontra força para crescer e cumprir sua função mais elementar: manter o homem de pé. A lavoura não é espetáculo, é sustentação. Ela revela que viver não é apenas contemplar a beleza, mas garantir as condições para que a vida continue.
Jardim, pomar e lavoura são mais do que espaços físicos. São projetos humanos. Projetos individuais, nascidos da iniciativa de quem gosta da vida e deseja um mundo melhor — não apenas para si, mas para todos. Cada canteiro cuidado, cada semente lançada, cada colheita feita expressa uma escolha ética: a de participar ativamente da construção do mundo.
Mas a primavera não traz apenas flores e frutos. Com ela surgem também os inços e as chamadas ervas daninhas. O nome já denuncia seu caráter subjetivo: são daninhas porque cresceram onde não planejamos que crescessem, porque não fazem parte do nosso desenho de jardim, pomar ou lavoura. No entanto, na ordem da natureza, nada é inútil. Essas plantas cumprem funções essenciais: depois de decompostas, viram adubo; fortalecem o solo; alimentam aves que polinizam florestas e campos; sustentam ciclos que o olhar apressado não percebe.
Assim também acontece com as críticas. Em todo projeto humano que floresce, elas aparecem. Muitas vezes vêm de quem não participa, de quem não encontra lugar dentro do que está sendo construído, ou de quem, incapaz de agir, escolhe julgar. São as ervas daninhas do convívio humano — crescem à margem da ação, mas não fora da vida.
Cabe ao homem que faz distinguir. Não arrancar tudo por impulso, nem permitir que o inço sufoque o que foi semeado com propósito. Compreender que até a crítica, quando bem interpretada, pode virar adubo; mas também reconhecer que há críticas que não buscam melhorar, apenas impedir que algo floresça.
O sol da primavera ilumina tudo. O belo e o incômodo. O fruto e o inço. Ele não escolhe lados — revela. E nesse revelar, oferece ao homem a chance de exercer aquilo que o torna verdadeiramente humano: discernir, cuidar e continuar semeando, mesmo sabendo que nem tudo que nasce foi convidado, mas tudo que permanece é resultado do cuidado.
Porque, no fim, viver é isso: persistir no cultivo da vida, confiando que, sob o sol certo, aquilo que vale a pena sempre encontrará um jeito de florescer.
ADAURI FANTINEL CABRAL
Engenheiro Civil
Advogado

