Mesmo em tempos de guerra politica nas redes, há uma cena que une praticamente todo mundo acima de certa idade no Brasil: Silvio Santos entrando no palco, jurados sendo chamados um a um e o auditório acompanhando o famoso “lá-lá-lá-lá-lá…”. O que quase ninguém sabia é que aquele tema tão brasileiro, que embalou domingos de fãs de direita, esquerda e tudo no meio, nasceu como uma canção soviética dos anos 1920.
A melodia original se chama “Dorogoi Dlinnoyu” (“Pela longa estrada”), composta por Boris Fomin com letra de Konstantin Podrevskii e gravada em 1925. Nascida na União Soviética, virou símbolo de nostalgia: falava da juventude que ficou para trás e de um passado idealizado. Décadas depois, ganhou versão em inglês como “Those Were the Days”, sucesso mundial na voz de Mary Hopkin, produzida por Paul McCartney em 1968.
No Brasil, a melodia ressurgiu como “Aqueles Tempos”, em versão de Fred Jorge gravada por Joelma Giro, e acabou adotada pela produção do Show de Calouros porque era fácil de cantarolar e grudava na memória. O maestro Zezinho transformou o tema em marchinha; Silvio encaixava “Pedro de Lara lá-lá-lá-lá…” e o país inteiro repetia junto, sem rótulos ideológicos – apenas se divertindo.
É aí que entra a ironia do nosso tempo: muita gente que hoje se declara anticomunista de carteirinha cresceu batendo palma, sorrindo e cantando uma melodia criada na União Soviética, em plena década de 1920. A mesma música que alguns chamam de “canção comunista” foi trilha oficial de um dos maiores ícones da TV comercial brasileira, um apresentador assumidamente capitalista que sempre criticou o comunismo.
A história da canção do Show de Calouros é um lembrete bem-humorado de que cultura não pede passaporte político. Ideologias brigam, mas uma boa melodia faz o que sempre fez: atravessa fronteiras, regimes e bolhas – e coloca gente de todos os lados para cantar o mesmo “lá-lá-lá” sem nem perceber de onde veio aquela música

